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Valuation

Quanto vale a minha empresa?

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Pedro Domingos | Founder DCapital

Imagine que amanhã recebe uma proposta de 3 milhões de euros pela sua empresa.

É uma boa proposta?

A resposta não depende de a empresa faturar €2 milhões, €5 milhões ou €10 milhões.

Também não depende de €3 milhões lhe parecer muito dinheiro.

Antes de aceitar ou rejeitar a proposta, há três perguntas a responder:

1) Que Cash Flow Sustentável está o comprador a adquirir?

2) Que retorno poderá obter pagando €3 milhões?

3) Que pressupostos têm de ser verdadeiros para €3 milhões fazer sentido?

Se não conseguir responder, ainda não sabe se €3 milhões é muito ou pouco.

Este artigo apresenta um processo para chegar a um intervalo de valor defensável para uma PME.

Uma empresa não vale aquilo que fatura.

Considere duas empresas.

Ambas faturam €5 milhões por ano.

Empresa A
  • Receita: €5.000.000

  • EBITDA: €750.000

  • Clientes recorrentes: 80%

  • Maior cliente: 7% da faturação

  • Crescimento: 8% ao ano

  • Baixa necessidade de investimento

  • Gestão independente do fundador

Empresa B
  • Receita: €5.000.000

  • EBITDA: €300.000

  • Clientes recorrentes: 20%

  • Maior cliente: 35% da faturação

  • Receita estável

  • Necessidade elevada de fundo de maneio

  • Fundador responsável pelas principais relações comerciais

A faturação é igual.

O valor provavelmente não é.

O comprador não está a comprar faturação.

Está a comprar os cash flows futuros que a empresa conseguirá gerar, considerando o risco necessário para os receber.

Por isso, uma primeira aproximação ao valor pode ser escrita assim:

Valor da empresa = Cash Flow futuro ÷ Risco

Não é uma fórmula de valuation.

É uma forma útil de pensar.

Mais cash flow sustentável aumenta o valor.

Mais risco reduz o valor.

Passo 1: Descobrir quanto a empresa ganha realmente.

Para muitas PMEs, o primeiro erro acontece antes de se aplicar qualquer múltiplo.

O EBITDA apresentado nas contas pode não representar a rentabilidade económica normal da empresa.

Imagine:

EBITDA contabilístico: €600.000

Mas existem:

  • €80.000 de remuneração extraordinária do sócio;

  • €35.000 de despesas pessoais suportadas pela empresa;

  • €25.000 de custos jurídicos associados a um processo não recorrente;

  • €40.000 de rendimentos extraordinários que não voltarão a existir.

O EBITDA não deve simplesmente passar de €600.000 para €740.000.

É necessário separar o que deve ser adicionado do que deve ser retirado.

Exemplo

EBITDA contabilístico:

€600.000

Adicionar:

  • €80.000 remuneração acima de uma remuneração de mercado

  • €35.000 despesas não relacionadas com a operação

  • €25.000 custo extraordinário

Retirar:

− €40.000 rendimento não recorrente

EBITDA normalizado = €700.000

Uma diferença de €100.000 parece pequena.

Num valuation a 5× EBITDA, representa:

€100.000 × 5 = €500.000

de diferença no Enterprise Value.

Faça este teste

Pegue na demonstração de resultados dos últimos três anos e identifique:

  • custos que não continuariam com um novo proprietário;

  • rendimentos que provavelmente não voltarão a existir;

  • remunerações de sócios acima ou abaixo de mercado;

  • despesas pessoais;

  • indemnizações;

  • litígios;

  • rendas fora de mercado;

  • eventos extraordinários.

A pergunta é simples:

Quanto teria ganho esta empresa se tivesse sido gerida em condições económicas normais?

Esse valor é normalmente mais relevante para um comprador do que o EBITDA publicado isoladamente.

Passo 2: Não confundir Enterprise Value com aquilo que os sócios recebem.

Suponha agora que o EBITDA normalizado é:

€700.000

E empresas comparáveis são avaliadas aproximadamente entre:

4,5× e 5,5× EBITDA

Teríamos:

700.000 x 4,5 = €3.150.000

700.000 x 5 = €3.500.000

700.000 x 5,5 = €3.850.000

É tentador concluir:

“A minha empresa vale entre €3,15M e €3,85M.”

Mas ainda falta uma etapa.

Esse valor representa o Enterprise Value.

Ou seja, o valor da operação independentemente da forma como está financiada.

Para chegar aproximadamente ao valor pertencente aos acionistas:

Equity Value = Enterprise Value − Dívida Líquida

Se existirem:

  • Dívida financeira: €900.000

  • Caixa: €200.000

Então:

Dívida líquida = €900.000 − €200.000 = €700.000

Aplicando ao cenário central:

Enterprise Value = €3.500.000

menos:

Dívida líquida = €700.000

resulta em:

Equity Value = €2.800.000

A empresa pode valer €3,5 milhões operacionalmente sem significar que os sócios receberiam €3,5 milhões numa venda.

Faça esta conta

Dívida financeira - Caixa disponível = Dívida líquida

Depois,

Enterprise Value - Dívida líquida = Equity Value

É o segundo número que mais se aproxima daquilo que pertence aos sócios.

Passo 3: Não escolha primeiro o múltiplo. Pergunte por que razão ele deveria ser alto ou baixo.

Um erro comum é descobrir que empresas do setor são vendidas a 5× EBITDA e concluir:

EBITDA x 5 = valor da empresa.

O problema está no número 5.

Por que 5×?

Por que não 4×?

Ou 7×?

O múltiplo resume várias características económicas da empresa.

Entre elas:

1. Crescimento

Uma empresa capaz de reinvestir capital a retornos elevados pode justificar um valor superior.

Mas crescimento, por si só, não basta.

Se para gerar mais €1 de receita forem necessários investimentos demasiado elevados, crescer pode criar pouco valor.

2. Margens

Duas empresas com €10 milhões de receita podem ter rentabilidades completamente diferentes.

O comprador paga pela capacidade de transformar receita em cash flow.

3. Recorrência

Pergunte: Se a empresa não conquistasse nenhum cliente novo durante os próximos 12 meses, quanto da receita atual permaneceria?

Quanto mais previsíveis forem os cash flows, menor tende a ser o risco.

4. Concentração de clientes

Uma empresa pode ter €1 milhão de EBITDA e depender de um único cliente para 45% da faturação.

Perder esse cliente pode alterar completamente o valuation.

5. Dependência do fundador

Faça esta pergunta: Se o fundador desaparecer da operação durante seis meses, o que acontece às vendas?

Se a resposta for “provavelmente caem”, parte do valor ainda está no fundador e não totalmente na empresa.

6. Necessidade de capital

EBITDA não é cash flow.

Uma empresa pode apresentar bons resultados e consumir grande parte do dinheiro em:

  • stocks;

  • clientes por receber;

  • investimento em equipamentos;

  • manutenção;

  • expansão.

Um comprador está interessado no dinheiro que poderá retirar da empresa depois desses investimentos.

Passo 4: Teste o valuation com Free Cash Flow.

Um múltiplo permite chegar rapidamente a uma estimativa.

Mas existe uma segunda pergunta: Os cash flows futuros justificam realmente esse valor?

É aqui que entra o Discounted Cash Flow, ou DCF.

Imagine que a empresa deverá gerar o seguinte Free Cash Flow:

Ano 1: €420.000

Ano 2: €455.000

Ano 3: €490.000

Ano 4: €520.000

Ano 5: €550.000

Esses €550.000 daqui a cinco anos não valem €550.000 hoje.

Existe risco e existe custo de oportunidade.

Por isso, cada cash flow é descontado através de uma taxa que procura refletir o risco do negócio.

De forma simplificada: Valor presente do cash flow = Cash Flow futuro / (1 + taxa de desconto)^n

Se o cash flow do primeiro ano for €420.000 e a taxa utilizada for 11%:

€420.000 / 1,11 = €378.378

É o valor aproximado hoje daquele cash flow futuro.

O processo repete-se para cada ano.

Depois é necessário estimar o valor económico da empresa para além do período explícito de projeção.

O resultado é um Enterprise Value baseado na capacidade futura de geração de caixa, em vez de simplesmente aplicar um múltiplo ao EBITDA atual.

Passo 5: Nunca fique apenas com um número.

Imagine que obtém:

Valuation por múltiplos

€3,15M – €3,85M

Valuation por DCF

€3,45M

Isto não significa que a empresa vale exatamente €3.450.000.

Uma conclusão mais útil poderia ser: Nas condições analisadas, um Enterprise Value aproximadamente entre €3,3M e €3,8M parece defensável.

Porquê um intervalo?

Porque pequenas alterações nos pressupostos podem produzir grandes alterações no valuation.

Por isso, discutir se o múltiplo correto é 5× ou 5,5× sem primeiro perceber a qualidade económica do negócio coloca a discussão pela ordem errada.

Então como saber se uma proposta de €3 milhões é boa?

Voltemos à pergunta inicial.

Alguém oferece:

€3.000.000

Em vez de responder imediatamente, coloque a proposta neste teste.

1) €3 milhões é Enterprise Value ou Equity Value?
2) Que EBITDA normalizado está implícito?
3) Quanto Free Cash Flow está o comprador a adquirir?
4) Que cenário justificaria um valor superior?

Um teste de 15 minutos para aplicas à sua empresa.

Abra as contas da empresa e escreva estes números:

Operação

Receita últimos 12 meses:

€________

EBITDA contabilístico:

€________

Ajustamentos extraordinários:

€________

EBITDA normalizado:

€________


Balanço

Dívida financeira:

€________

Caixa:

€________

Dívida líquida:

€________


Qualidade do negócio

Percentagem da receita proveniente do maior cliente:

________%

Percentagem dos três maiores clientes:

________%

Percentagem de receita recorrente:

________%

Crescimento médio dos últimos três anos:

________%


Conversão em caixa

EBITDA:

€________

menos impostos:

€________

menos investimento necessário:

€________

menos aumento de fundo de maneio:

€________

Free Cash Flow aproximado:

€________

Agora responda:

  1. Quanto do EBITDA chega realmente a caixa?

  2. O cash flow é recorrente ou depende de acontecimentos difíceis de repetir?

  3. Que cliente teria maior impacto se desaparecesse amanhã?

  4. A empresa consegue funcionar sem o fundador?

  5. Quanto capital necessita para crescer mais €1 de receita?

  6. Que pressuposto teria maior impacto no valuation se estivesse errado?

Se não consegue responder a estas perguntas, essa incerteza também faz parte do valuation.

Conclusão: Quanto vale, então, uma empresa?

Não existe uma percentagem da faturação que responda corretamente.

Também não existe um múltiplo universal de EBITDA.

O valor depende essencialmente de quatro coisas:

Cash Flow × Crescimento × Sustentabilidade × Risco

Uma empresa vale mais quando consegue gerar mais caixa, durante mais tempo, com menos risco e sem necessitar de reinvestir uma quantidade desproporcionada de capital para continuar a crescer.

É por isso que duas empresas com exatamente o mesmo EBITDA podem ter valuations completamente diferentes.

E é também por isso que a pergunta certa não é apenas:

Quanto vale a minha empresa?

mas sim,

Que pressupostos explicam esse valor e consigo defendê-los perante alguém que tem dinheiro em risco?

Se a resposta for sim, existe uma valuation.

Se não, existe apenas um número.


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— Founder & CEO, PME Portuguesa.

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